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Caixa Preta 7
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A mídia não entende nada de aviação
Mais de cem anos após a invenção do avião, e não entrando no mérito de quem o inventou, passado um século no qual o ser humano foi mais além e pisou na lua, aviação ainda é considerada “coisa de outro mundo” ou até “coisa do demo” para alguns. Não deveria ser assim, dado o nível tecnológico que atingiram as máquinas voadoras e o acesso ao conhecimento, especialmente na era da internet. Não vou criticar quem nunca chegou perto de um avião ou mesmo de um aeroporto, uma população ainda enorme. Mas me refiro à mídia, muitas vezes, único canal de informação justamente dessas populações. Muita gente aprendeu o que é o mundo, por exemplo, simplesmente vendo televisão. E pobre dessa gente, se o que aprendeu foi distorcido pela tal telinha. Recentemente, uma aeronave da TAM foi vítima de uma forte área de turbulência quando se aproximava de São Paulo. Em consequência, mais de 20 pessoas, entre passageiros e tripulantes, se feriu. O primeiro ponto a destacar é que, embora muitos passageiros e seus familiares tenham ficado indignados e revoltados, lamento informar isso, a culpa, não do chacolejar, é claro, mas dos ferimentos, é principalmente deles mesmos. Inclusive, na hora da turbulência, uma das passageiras feridas havia justamente se levantado de sua poltrona para devolver à comissária a bandeja esquecida em sua mesinha – declaração da própria passageira –, para o que bastaria ela permanecer sentada e apertar o botão de chamada de comissária para isso, não precisava se levantar e ir atrás da tripulante. Deu no que deu. Eu mesma, dias antes, também havia chegado de Miami. Na viagem de ida para aquela cidade, também a bordo da TAM, na semana anterior, enfrentei um voo também razoavelmente turbulento. Não presenciei ninguém ferido e o meu voo não ganhou manchetes. Talvez porque, como eu, os passageiros tenham sido inteligentes o suficiente para manter os cintos afivelados a todo momento em que estivessem sentados em suas poltronas. Essa é a regra número 1 para o passageiros, de qualquer avião, voando a qualquer destino e altitude, independentemente do piloto acender ou não o aviso de colocar os cintos. Basta se afivelar e pronto, os riscos reduzem-se, e muito. No dia do outro voo – o que ganhou os noticiários – , como de praxe, colecionei reportagens de TV de pelo menos cinco emissoras diferentes, sobre o caso da turbulência que brincou com o A330. Analisei o conteúdo das mesmas. Aí, quem me indignou fui eu: como podem AINDA alguns jornalistas acreditarem que existe VÁCUO na atmosfera??? A narração da reportagem da emissora “7” foi exatamente essa (negritos por minha conta): "Uma turbulência chamada de 'céu claro' atingiu o avião, que passou por uma área com pouco ou sem nenhum ar. Isso acontece por causa dos fortes ventos que podem chegar a 200 km/h. Em casos como esse a aeronave não encontra atmosfera para se sustentar e ela tem uma queda brusca até sair dessa zona de vácuo e se estabilizar." Essa idéia, muito antiga, por sinal, presente ainda hoje no século XXI. Tá explicado porque aviação não é levada a sério, com reportagens desse tipo mal-informando e ensinando errado sobre aviação!!!
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Em março passado, um avião da empresa Arrow Air perdeu parte de um motor ao decolar de Manaus (AM). Só não se sabe quem idealizou o projeto de um DC-10 quadrimotor, como foi mostrado na reportagem da TV. Se o artista da emissora de TV se baseou em alguma foto real para fazer a arte para o telejornal, alguém poderia me dizer qual foto foi?
Mas esse não é o único projeto de avião novo da McDonnell Douglas (que, aliás, nem existe mais). No dia 11 de março o jornal “10” publicou a seguinte manchete (negritos meus)
“Avião perde fuselagem e faz pouso de emergência em NY”. E, logo abaixo: “Piloto do MD-30 com 93 pessoas a bordo conseguiu aterrissar com segurança no aeroporto La Guardia.” E continua: “Um avião da American Airlines com 93 pessoas a bordo precisou fazer um pouso de emergência minutos após decolar do aeroporto de La Guardia, em Nova York, por ter perdido pedaços da fuselagem, possivelmente de um dos motores (...). O incidente, que não deixou feridos, ocorreu ás 8h15 (9h15 de Brasília), quando MD-30 que operava o vôo 309 da American Airlines decolou de La Guardia (...)” Em terra, a aeronave foi inspecionada e foram encontrados restos de metal na fuselagem, segundo as autoridades, que disseram que parte de um dos motores se desprendeu (...)”
Bem, vamos esclarecer algumas coisinhas:
Primeiro, não existe MD-30, e o avião era mesmo um MD-80. “Fuselagem” é uma das partes do avião. Ele se divide em fuselagem, empenagem, asas e motores. Fuselagem é todo o corpo do avião. Empenagem é a cauda. Asas e motores são asas e motores mesmo. Se o avião, portanto, perdeu a fuselagem, acho que perdemos o avião inteiro, empenagem, motores e asas não seguiriam sozinhos sem ela... Mas é mesmo frequente confundir fuselagem com o revestimento de metal do avião, seja do corpo, da cauda, das asas ou do motores. Isso requer, na hora da tradução das notícias que chegam das agências internacionais, que um especialista, não um leigo, faça a tradução para o redator, e que este não se limite a “eu acho que é isso...”. Quanto aos restos de metal na fuselagem, tratavam-se mais propriamente de lascas, pedacinhos de metal do revestimento do motor. Mas como toda fuselagem de MD-80 é de metal, ter metal na fuselagem não é nada anormal, a não ser que se explique que são restos do revestimento, ou mais exatamente da carenagem, do motor. Em todos os casos lamentáveis dos coleguinhas, que citei acima, poucos minutos de pesquisa na boa e conhecida internet resolvem qualquer dúvida mesmo na falta de tempo para telefonar para uma especialista, o que é ainda mais recomendável. É preciso, afinal, que nós, jornalistas, sempre nos lembremos que milhares ou mesmo milhões de pessoas lerão o que escrevemos e boa parte desse público julga aprender algo conosco!
JATO DERRAPA EM CONGONHAS
Um problema no pouso de um jatinho King Air no aeroporto de Congonhas pode atrapalhar os horários de pousos e decolagens da tarde e da noite de hoje. O jato, que pertence a Líder, derrapou na hora do pouso e bateu num muro. O piloto e o co-piloto foram removidos de ambulância. E a pista do aeroporto está interditada. Bem, claro que o King Air não é um jato, mas um turboélice. Quem sabe no futuro não colocam motores a reação no famoso bimotor, mas ainda não há planos nesse sentido.
FALHA DE MEMÓRIA A pressa é desculpa para tudo no jornalismo, ainda mais em tempos de internet. Vejam o exemplo abaixo, do portal “9”, em 02/06/2008:
Controladores envolvidos no acidente da Gol responderão a 2 processos distintos
Vice-presidente do STJ negou prosseguimento do recurso contra esta decisão. Tribunal havia determinado que militares responderão nas justiças Militar e Federal. O vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Cesar Asfor Rocha, negou seguimento ao recurso do Ministério Público Federal que pedia revisão da decisão do tribunal. O STJ determinou, em fevereiro, que os controladores de tráfego aéreo envolvidos no acidente com o avião da Gol, em dezembro de 2006, respondam a dois processos distintos: um perante a Justiça Militar – pelos crimes militares – e outro na Justiça Federal – por crime comum. A informação foi divulgada por meio da página do tribunal na internet nesta segunda-feira (2). Sabemos que o acidente com o Gol 1907 foi no final de setembro de 2006. Se houvesse sido em dezembro, muita gente poderia aproveitar para inocentar os pilotos do Legacy e botar a culpa no trenó do Papai Noel...
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A crise aérea, vejam bem, ainda não terminou, apenas está latente, esperando a próxima pane de equipamentos de nossa infra-estrutura precária. Já imaginaram se o passageiro brasileiro não fosse bonzinho? Se chegarmos ao ponto de seguirmos o exemplo dos passageiros norte-americanos, como a passageira abaixo:
Fonte: Folha OnLine, 04/06/2008 AMENDOIM LEVA MULHER A PROCESSAR COMPANHIA AÉREA NOS EUA da Associated Press, em Nova York Uma mulher de Nova York decidiu processar a American Airlines alegando que a companhia aérea serviu amendoins a seu filho de quatro anos, alérgico ao alimento, durante um vôo. A ação corre na Corte Suprema do Estado de Manhattan. Tehmina Haque afirma que a empresa lhe garantiu diversas vezes que amendoins não seriam servidos na viagem de Nova York a Los Angeles. Porém, comissários de vôo ofereceram o alimento no vôo realizado no dia 18 de abril. O porta-voz da American Airlines, Tim Smith, se recusou a comentar o caso, declarando apenas que a política relativa a amendoins nos voos está disponível para consulta no site da empresa. Segundo a companhia, durante as viagens são servidas refeições que contêm amendoim. Além disso, passageiros podem embarcar com o alimento. As normas da empresa enfatizam ainda que os passageiros alérgicos devem "tomar todas as precauções médicas necessárias para a possibilidade de contato" com amendoins nos voos. Se a moda pega, inúmeros passageiros brasileiros poderão reclamar das apelidadas “barrinhas de alpiste”, ou seja, as barrinhas de cereais. Eu, particularmente, nada tenho contra essas barrinhas, muito saudáveis, por sinal, mas, em voo, jamais substituirão uma refeição, especialmente em trechos longos ou repletos de escalas. Aliás, trecho curto não é desculpa: a melhor refeição de ponte aérea Rio-São Paulo que saboereei, em uma de nossas empresas hoje falidas, foi um delicioso penne ao molho branco com camarões. Aliás, deverei grafar esses Camarões com inicial maiúscula, para combinar com o tamanho dos mesmos! Caixa Preta é escrita pela jornalista Solange Galante e é publicada regularmente 10/06/2009
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